Poupança das famílias deverá aumentar em tempos de pandemia - TD Crédito

Abril 29, 2020

Incerteza leva a reduzir gastos, mas um prolongamento da crise e a perda de rendimento disponível pode diminuir almofada financeira a médio prazo.

Por cada 100 euros de rendimento disponível as famílias portuguesas pouparam, em média, 6,70 euros no ano passado. O fundo de maneio que as famílias têm disponível para enfrentar a crise associada ao coronavírus fica muito abaixo da média da zona euro, que no final do quarto trimestre de 2019 registava uma taxa de poupança de 13%, mas os analistas consultados pelo Jornal Económico antecipam que em períodos de crise a poupança tende a aumentar. No entanto, também avisam que o impacto na almofada financeira das famílias poderá chegar mais tarde se a crise se prolongar.

Em 2019, a taxa de poupança das famílias foi de 6,7% do rendimento disponível, uma descida de 0,1 pontos percentuais face ao valor registado em 2018, justificada por um aumento das despesas (0,8%) superior ao aumento do rendimento disponível (0,7%). Bruno Fernandes, economista do Santander Portugal, acredita que esta pode aumentar no imediato, recordando que se trata de um fluxo financeiro resultante da evolução do rendimento disponível menos o consumo das famílias num dado momento, variando se um dos fatores ou ambos variarem.

“No atual contexto pandémico, a poupança das famílias até poderá aumentar ligeiramente, fruto de uma queda mais forte do consumo (influenciada pelo adiamento de despesa fixa associada à habitação), enquanto a componente rendimento possa variar menos negativamente, dado que os agentes económicos ainda continuam a obter parte dos seus salários, seja porque se mantêm empregados, em lay-off ou mesmo na situação de desemprego e a receber o respetivo subsídio”, diz.

Este cenário deverá levar o consumo privado a cair 2,8% este ano, antes de aumentar para 1,4% em 2021, segundo estimativas do Banco de Portugal. No boletim económico de março, o regulador antecipa uma queda dos gastos em bens duradouros e uma redução do consumo corrente. “A evolução do consumo reflete, por um lado, um aumento da poupanca por motivos de precaução por parte das famílias num contexto de grande incerteza e, por outro, a ligeira queda do rendimento disponível real”, lê-se.

Os economistas do BdP anteveem uma queda do rendimento disponível devido à redução do emprego e de um menor crescimento dos salários por trabalhador.

Já António Ribeiro, analista de mercados financeiros e economista da Deco, mostra-se mais pessimista. “Os próximos meses poderão ser muito complicados a nível de liquidez para as famílias, porque muitas delas já tinham resgatado os produtos financeiros na anterior crise, e ainda não houve tempo suficiente para fazer algumas poupanças. Claro que há algumas famílias que ainda têm, mas muitas não terão”, diz. Realça, por exemplo, a despenalização do resgate dos Planos Poupança-Reforma (PPR) como exemplo de poupanças de longo prazo que poderão ser utilizadas para responder a dificuldades financeiras de curto prazo.

O economista considera que “não se augura uma perspetiva muito boa para os próximos anos”, antecipando que, “provavelmente, vêm aí mais medidas de austeridade e vai ser complicado para fazer face a essas dificuldades”.

Almofada das famílias pode superar 80% do PIB
Bruno Fernandes estima que a almofada financeira das famílias deverá estagnar ou até subir ligeiramente este ano. Porém, alerta que, dependendo dos impactos permanentes da crise, pode degradar-se posteriormente.

“Se considerarmos apenas a componente de liquidez imediata disponível – que constitui uma parte do património das famílias – deverá manter-se relativamente estável ou até mesmo subir ligeiramente nesta primeira fase da crise criada pelo surto ou em 2020”, diz o economista do Santander Portugal. Sublinhando que os depósitos de particulares junto dos bancos rondavam no primeiro trimestre deste ano 151 mil milhões de euros, ou cerca de 75% do PIB, aponta que como é expectável que a economia registe uma contração este ano, “por efeito denominador, esta almofada financeira das famílias poderá superar os 80% do PIB, se considerarmos os atuais níveis de depósitos”.

“Contudo, se a fase de retoma tardar e os impactos temporários da crise se tornarem permanentes, algo que só poderemos aferir em 2021, então poderemos observar uma gradual diminuição do património das famílias e, consequentemente, uma diminuição da capacidade de poupança agregada”, aponta.

Fonte: O Jornal Económico

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